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Turismo literário: a tendência que domina 2026

Há uma nova pergunta rondando as rodas de leitura e os grupos de viagem: “de qual livro é esse lugar?”. Em 2026, escolher um destino de viagem a partir de um romance, de um poeta ou de uma cena marcante de um livro deixou de ser um gosto de nicho para virar uma das grandes tendências do turismo mundial.

O tamanho do turismo literário

Segundo o relatório de tendências de viagens 2026 da Skyscanner, 55% dos viajantes já reservaram ou consideraram fazer uma viagem inspirada em um livro. No mesmo levantamento, as buscas por hospedagens com biblioteca cresceram 70%, sinal de que a leitura passou a fazer parte da experiência da viagem em si.

O impacto financeiro também já é mensurável: um estudo da Future Market Insights estima que o turismo literário movimentou cerca de US$ 2,4 bilhões no último ano, com projeção de alcançar US$ 3,3 bilhões até 2034.

Por trás desses números, está uma mudança cultural mais ampla. O consumo de literatura voltou a crescer entre as novas gerações, puxado por clubes de leitura, bares temáticos e, principalmente, pelas redes sociais: somente em 2025, a hashtag #BookTok ultrapassou 370 bilhões de visualizações no TikTok, com mais de 52 milhões de publicações associadas. O #Bookstagram segue o mesmo movimento no Instagram, transformando estantes, viagens e releituras de clássicos em conteúdo compartilhável.

De Outlander à Terra-média: quando a ficção vira roteiro

Boa parte dessa febre nasce do encontro entre livro, adaptação audiovisual e rede social. A Escócia é um dos exemplos mais citados: o sucesso da série Outlander, baseada nos livros de Diana Gabaldon, impulsionou o interesse por castelos, vilarejos históricos e paisagens das Highlands, dando origem a rotas temáticas voltadas para fãs da saga. Na Nova Zelândia, o universo de O Senhor dos Anéis segue atraindo visitantes interessados em percorrer cenários que remetem à Terra-média, mais de vinte anos depois da estreia dos filmes.

O fenômeno também aparece fora das telas. Em Cartagena, na Colômbia, os leitores seguem os passos do realismo mágico de Gabriel García Márquez, visitando lugares mencionados em seus romances e até o hotel onde o autor se casou. Em Dublin, o “Joyce Walk”, um passeio a pé pelos locais citados em Ulisses, segue lotado de turistas com exemplares debaixo do braço, enquanto Lisboa recebe quem quer caminhar pelas ruas que inspiraram Fernando Pessoa e José Saramago. Em Paris, o roteiro passa pelas margens do Sena, cafés e livrarias que aparecem tanto em clássicos como O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, quanto em romances contemporâneos.

Multidão reunida na rua em frente à livraria Shakespeare and Company, em Paris, durante evento literário ao ar livre.
A histórica Shakespeare and Company, em Paris, reúne multidões em eventos literários ao ar livre. Fonte: Shakespeare and Company

O Brasil também tem seus capítulos

A tendência não é exclusividade internacional. Paraty, no Rio de Janeiro, é hoje sinônimo de literatura graças à FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), um dos eventos literários mais importantes do país, que transforma o casario colonial em point de debates e livrarias lotadas. Já Itabira, em Minas Gerais, virou destino de peregrinação para quem quer conhecer a terra natal de Carlos Drummond de Andrade, com museus e monumentos que preservam sua memória. Recife, por sua vez, carrega o berço de nomes como Clarice Lispector e Joaquim Nabuco, unindo centro histórico, feiras de livros e praia em um mesmo roteiro.

A Bahia completa esse mapa literário nacional com força própria. Salvador e, principalmente, Ilhéus vivem sob a influência de Jorge Amado. A cidade, que serviu de cenário para romances como Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim, atrai hoje viajantes que querem mergulhar no imaginário literário ao percorrer bares, mercados e casarões que inspiraram o autor. É um roteiro que une literatura, história e sabor em um só destino.

Rua de pedras do centro histórico de Paraty (RJ) ladeada por casarões coloniais brancos com portas e janelas coloridas em azul e amarelo.
Ruas de pedra e casarões coloniais: o cenário de Paraty que também vira palco de debates literários na FLIP. Fonte: Liudi Hara

Por que essa tendência cresce tanto

Especialistas apontam algumas explicações para o avanço dessa modalidade de turismo cultural:

  • Busca por experiências mais lentas e significativas: em vez de acumular pontos turísticos, o viajante literário quer entender um lugar pela sua “alma criativa”, o que deu origem às chamadas book-cations (férias de leitura) e aos retiros literários, focados em ler em ambientes tranquilos.
  • Redes sociais como vitrine e mapa: BookTok e Bookstagram funcionam como curadoria coletiva, sugerindo hospedagens temáticas, livrarias históricas e cidades inteiras a partir de um único vídeo ou post.
  • Adaptações audiovisuais como gatilho: séries e filmes baseados em livros, de Outlander a fenômenos mais recentes, reacendem o interesse por cenários reais, criando uma ponte direta entre tela, página e passagem aérea.

O próximo capítulo já começou

Se antes a viagem literária era território de poucos apaixonados por clássicos, 2026 mostra um público muito mais amplo, decidindo destinos a partir de estantes, feeds e listas de leitura. Entre livrarias centenárias, casas de escritores e cenários de romance, o mapa do turismo mundial está sendo redesenhado por quem prefere viajar com um livro na mala e o destino já sublinhado.

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