Levantamento Ministério do Turismo, em parceria com a UNESCO, ouviu 2.712 mulheres de todas as regiões do país e revelou que 64% delas buscam contato com a natureza em viagens desacompanhadas, tornando o ecoturismo a segunda experiência mais desejada por essas viajantes, atrás apenas das atividades culturais, mencionadas por 68,3% das entrevistadas.
Os dados fazem parte do “Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas”, lançado em março de 2026, e apontam que a busca por independência e lazer estão entre as principais motivações para viajar sem companhia. É nesse contexto que o contato com a natureza se destaca, refletindo uma presença cada vez maior de mulheres em trilhas, cachoeiras e montanhas do país.
Uma mudança que vem de longe
Durante boa parte do século XX, atividades como montanhismo, camping e turismo de aventura foram vistas como ambientes predominantemente masculinos. Questões culturais e sociais desencorajavam muitas mulheres a participar dessas experiências, sob a falsa ideia de que a natureza selvagem e os desafios físicos não eram “lugares para elas”.
Essa realidade, porém, vem mudando rapidamente. Hoje, encontramos mulheres liderando expedições, atuando na conservação ambiental, praticando esportes de aventura e ocupando posições de destaque no ecoturismo.
Guia de turismo e fundador da Natureza Viva Ecoturismo, Leandro Kalleder, que atua há anos na Mata Atlântica, confirma a transformação: cerca de 80% dos participantes das atividades que conduz são mulheres.
“A trilha deixa de ser apenas uma caminhada na floresta. Ela se transforma em um espaço de descoberta, confiança e superação”
Para ele, muitas participantes não procuram apenas uma bela paisagem, mas uma pausa, um momento de conexão consigo mesmas em meio à correria da vida moderna.
Destinos em alta
Entre os destinos nacionais que têm despertado especial interesse das mulheres, destacam-se:
- O trekking no Vale do Pati, na Chapada Diamantina (BA), considerado um dos percursos de caminhada mais cênicos do mundo;

- A imersão na Amazônia (AM);

- A travessia pelos Lençóis Maranhenses (MA), com suas dunas e lagoas;

- As expedições ao Monte Roraima, na fronteira com a Venezuela.

Desafios ainda persistem
Apesar do avanço, a segurança ainda é uma barreira significativa. A pesquisa do Ministério do Turismo revelou que 62% das mulheres já deixaram de viajar sozinhas por receio da violência, e algumas ainda relataram ter vivido situações de insegurança durante viagens solo.
Por isso, especialistas recomendam cuidados como escolher empresas legalizadas, pesquisar a qualificação dos guias, verificar avaliações em plataformas, começar por roteiros compatíveis com o condicionamento físico e informar familiares sobre os planos.
Mais do que uma tendência, um movimento
O fortalecimento do ecoturismo feminino não representa apenas uma mudança nas trilhas e nos destinos, mas um movimento mais amplo de autonomia e representatividade. Segundo dados do IBGE, cerca de 57% dos negócios de turismo no Brasil são liderados por mulheres. E, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), 31% das empresas associadas são administradas exclusivamente por mulheres.
“Quando uma mulher vê outra mulher conduzindo um grupo, liderando uma atividade ou compartilhando conhecimento na natureza, ela passa a enxergar novas possibilidades para si mesma”, destaca Kalleder.
A representatividade, nesse contexto, tem o poder de abrir caminhos.









