O hábito de escrever à mão está em risco. Com a popularização dos celulares e computadores, o papel e a caneta foram ficando para trás. No entanto, a ciência tem um alerta, abandonar essa prática pode trazer consequências graves para o desenvolvimento cerebral.
A neuropsicóloga e psicopedagoga Adriana Fóz é direta sobre o tema. “Vai haver uma crise de inteligência”, afirmou em entrevista ao G1. Para ela, o ato de escrever à mão é um exercício cognitivo complexo que o mundo digital não consegue replicar.
“Ela desacelera o cérebro, em prol de ter mais profundidade, de treinar vários quesitos que você não consegue treinar no mundo digital”, explica Adriana.
No ambiente digital, prevalecem a pressa e o raciocínio rápido, o que muitas vezes limita a reflexão.
O que a ciência diz
Um estudo norueguês de 2024, publicado no periódico “Frontiers in Psychology”, concluiu que escrever manualmente estimula a atividade cerebral em regiões essenciais para o aprendizado. Os pesquisadores Audrey van der Meer e Ruud van der Weel observaram que o ato de escrever à mão ativa uma “sinfonia neural” que envolve coordenação motora, memória operacional e processamento linguístico.
A pesquisa mostrou que escrever com caneta e papel exige mais das redes neurais do que digitar. Isso porque o movimento preciso da mão, a pressão sobre o papel e a formação das letras ativam simultaneamente diferentes áreas cerebrais.
Pesquisas anteriores já apontavam na mesma direção. Um estudo da Universidade de Princeton e da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) demonstrou que alunos que fazem anotações à mão tendem a memorizar melhor o conteúdo do que aqueles que usam laptops. Eles processam a informação em um nível mais profundo, por serem obrigados a resumir e reorganizar as ideias com as próprias palavras.
A neuropsicóloga Adriana Fóz explica que a leitura nasce de um cérebro que já integrou percepção e ação, pois a criança aprende a ler quando já fez o ato motor da letra. “A escrita é que cria um encaixe entre ver e fazer”, afirma. A atividade ativa o chamado “loop grafomotor” que integra planejamento motor, memória de trabalho e linguagem.

Crise de inteligência e divisão social
O alerta ultrapassa o aprendizado individual. Adriana Fóz avalia que a sociedade está criando dois tipos de seres humanos: aqueles que continuarão refletindo, lendo e escrevendo, e aqueles que não.
“Em termos estatísticos, a maioria dos estudos sobre a relação entre a escrita e a memória mostram que as pessoas se lembram melhor das coisas que escreveram à mão do que num computador”, diz Naomi Susan Baron, professora emérita de linguística da American University, em Washington.
Retorno às salas de aula
Países como Suécia, Finlândia e Estados Unidos chegaram a testar a redução da escrita à mão no currículo escolar, mas recuaram. Na Califórnia, berço do Vale do Silício, as escolas públicas retomaram o ensino da escrita cursiva para alunos do 1º ao 6º ano em janeiro de 2025.
Em Nova Jersey, o ensino da caligrafia para alunos do 3º ao 5º ano se tornou obrigatório a partir do ano letivo de 2026. A decisão, segundo as autoridades, não é motivada por nostalgia, mas por evidências científicas sobre os benefícios neurológicos e cognitivos da prática.
Para especialistas, a questão não é negar os avanços tecnológicos, mas garantir que a escrita à mão coexista com as ferramentas digitais.









