O etarismo está sendo o verdadeiro tema do Rock in Rio 2026. Enquanto a Cidade do Rock pulsa com cerca de 100 mil pessoas, o palco principal foi ocupado por artistas que, juntos, desmontaram um preconceito silencioso que ainda persiste na indústria cultural. A edição deste ano consagrou a força de nomes históricos que provaram que talento, energia e emoção não têm idade para expirar.
Elton John

O astro britânico de 79 anos, que havia anunciado a aposentadoria das grandes turnês em 2023, fez uma exceção para se apresentar no festival. O show durou mais de duas horas e teve 24 músicas, um feito e tanto para qualquer artista, independentemente da idade.
Apesar de desafios de saúde, incluindo a perda da visão do olho direito e dificuldades no olho esquerdo, Elton mostrou que a genialidade não se abala. Ele vestiu um terno amarelo, sentou-se ao piano e conduziu o público por uma viagem emocionante por sucessos como “Rocket Man”, “Your Song”, “Candle in the Wind” e “Bennie and the Jets”. O artista também fez questão de se declarar ao Brasil, repetindo “obrigado!” diversas vezes em português e dizendo: “Obrigado, Brasil, por ser uma parte tão linda da minha vida”.
O etarismo, que muitas vezes tenta limitar a atuação de artistas mais velhos, foi confrontado diretamente pela entrega emocional de Elton John, que levou o público às lágrimas e provou que a idade não define a capacidade de emocionar.
Uma noite de veteranos

Antes de Elton John, Gilberto Gil, de 84 anos, já havia mostrado que seu vigor artístico permanece intacto. Ele apresentou um repertório que mesclou clássicos e canções renovadas, além de homenagear Rita Lee com um cover de “Ovelha Negra”. Sua presença, 41 anos após a primeira edição do festival, foi um dos momentos mais simbólicos da noite, e um golpe direto no etarismo que insiste em associar juventude à relevância.
O Palco Sunset também teve sua cota de talento experiente. A multidão lotou o espaço para ver o Roupa Nova e Guilherme Arantes, de 73 anos. Guilherme, em sua primeira apresentação no Rock in Rio, viveu uma verdadeira reparação tardia, arrancando aplausos com sucessos como “Cheia de Charme” e “Lindo Balão Azul”.
Outro momento de impacto foi a apresentação de Péricles, de 57 anos, que empolgou a Cidade do Rock com um repertório de soul americano, cantado inteiramente em inglês. E, no show do Jota Quest, o cantor Toni Tornado, de 96 anos, apareceu de surpresa. Ele subiu ao palco, cantou “Sossego”, de Tim Maia, dançou e arrancou gritos da plateia, um feito impressionante que comprovou que a energia não tem prazo de validade e que o etarismo é uma barreira que a música tem o poder de derrubar.
O cabelo branco como símbolo de resistência ao etarismo
O Rock in Rio 2026 mostrou que a indústria cultural pode e deve abrir espaço para todas as gerações. A presença de artistas como Roberto Menescal, de 88 anos, e Joyce Moreno, de 78, entre outros, reforça a mensagem de que o etarismo é um preconceito que precisa ser combatido em todas as esferas, inclusive na música.
A edição deste ano ficará marcada como o festival que emocionou e fez o público cantar junto, celebrando a longevidade artística. Foi um lembrete de que a capacidade de transformar o mundo pela arte nunca envelhece, e que a experiência traz uma força indispensável para o palco e para a vida.
O etarismo, tantas vezes naturalizado, foi exposto no Rock in Rio 2026 não por discursos, mas por performances. E talvez esse seja o recado mais poderoso: a arte não tem idade, e o palco é de quem tem algo a dizer, independentemente do ano de nascimento.









