Analista de suprimentos nas horas vagas, empreendedora por necessidade desde a infância, Suellen Mattos levou sua própria trajetória, marcada pela informalidade e pela superação, para o podcast Wecastwoman dedicado a mulheres empreendedoras de todas as áreas. Em entrevista à Gazeta do Saber, ela fala sobre origem, medos, desafios do mercado e os próximos passos do projeto.
Rita Montenegro: Suellen, antes de falarmos sobre o podcast, gostaria que você contasse um pouco sobre a sua trajetória: como foi seu caminho até aqui, tanto pessoal quanto profissional, e em que momento o empreendedorismo entrou na sua vida?
Suellen Mattos: “Tenho muito orgulho da minha trajetória. Sou de Nova Iguaçu e vim de uma família humilde, com zero estrutura. Minha mãe era dona de casa e meu pai tinha outra família. Minha avó sempre vendeu Natura, calcinha… e me levava junto com ela. Eu levava produtos para a escola para vender, fazia as unhas das mães das minhas amigas, trabalhava em buffet de aniversário.
Acredito que minhas habilidades pessoais interferem diretamente na minha vida profissional. Sou formada em Administração e mestre em Contabilidade, estudei também na Irlanda. Trago a questão do empreendedorismo adaptativo, não olhando apenas para a empresária, a médica que tem sua clínica, a advogada que tem seu escritório, mas ampliando esse olhar: todas nós, mulheres, temos esse espírito empreendedor. Quantas de nós temos um emprego formal? Poucas, e por isso recorremos ao trabalho informal. A própria Natura fez uma pesquisa em parceria com o Sebrae sobre isso.
Foi através do trabalho que mudei a minha vida. Uma mulher que, às vezes, faz um bolo para vender pode ter uma vida estruturada.”

Um estudo divulgado em setembro de 2026, pelo economista Fernando Blumenschein, estimou em 19 milhões o número de nanoempreendedores no país — trabalhadores com faturamento anual de aproximadamente R$ 40 mil, atuando em atividades de pequena escala como as que marcaram a infância da entrevistada. A pesquisa não traz a divisão dos dados por gênero, mas o número dá dimensão ao universo de brasileiras e brasileiros que, como Suellen, transformaram o trabalho informal em sustento e, depois, em propósito.
Rita Montenegro: O que te levou a criar um podcast voltado para mulheres empreendedoras?
Suellen Mattos: “Minha missão é mostrar que essas mulheres são empreendedoras, podem ser até faxineiras, e que sucesso não é ser bilionário. É isso que quero trazer com o podcast.
Estamos passando por um vendaval econômico no nosso país, e acho fundamental que essas mulheres tenham uma ideia de como a economia funciona. A internet é um campo em que temos a possibilidade de desbravar negócios, serviços e produtos, assim como eu também estou tentando fazer. Sucesso é trazer estratégia e saborear o que você está plantando. Geralmente pensamos: será que este é o caminho certo? Eu também penso sobre isso. Mas pelo simples fato de caminhar nessa direção, alguma coisa dentro de mim muda.”
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Rita Montenegro: Como era o cenário do empreendedorismo feminino quando você começou, e o que mudou desde então?
Suellen Mattos: “Estamos em constante mudança, vivendo uma revolução da IA. Sou millennial, então vivi uma fase de transição tecnológica: até 2015 a tecnologia avançava em passos largos, e depois veio um “boom” ainda maior a partir de 2020, com a pandemia.
Nunca tive vontade de morar fora, mas fui para a Irlanda em 2016. Era o meu sonho fazer intercâmbio. Na época, quem fazia esse tipo de intercâmbio geralmente era filho de gente rica. Na minha família, fui a primeira a fazer isso, e existia muito preconceito. Esse preconceito vem do medo: como se as meninas que iam para fora fossem se prostituir. Vim de uma família muito simples e vi de tudo lá fora. Quando você faz um intercâmbio sozinha, sem rede de apoio, a porta se fecha e você precisa amadurecer rápido, e isso me ajudou muito. Cada lágrima que chorei me fez ser a pessoa que sou hoje. Não me sinto melhor que ninguém; pelo contrário, fico até emocionada ao me lembrar disso.
Vivemos em um país em que a maior parte da população luta pela sobrevivência, sem uma vida confortável. Por isso faço um trabalho voluntário na comunidade do Morro Azul, dando aulas de inglês para crianças em situação de vulnerabilidade — para que elas tenham uma perspectiva melhor e acreditem no valor do trabalho. Só trilhei esse caminho porque minha mãe valorizava muito o trabalho e sempre disse que devemos ser independentes para cuidar da nossa própria vida.”
Rita Montenegro: Como você escolhe os temas e as convidadas de cada episódio?
“Estou aberta a receber mulheres de diversas áreas. Quero mostrar mulheres de todos os setores, mantendo essa parte da minha personalidade que é ser curiosa com tudo e com todos, porque o empreendedorismo está presente em todas as áreas.”
Rita Montenegro: Qual foi a entrevista ou episódio que mais te marcou até hoje, e por quê?
Suellen Mattos:“Todas as entrevistas trouxeram algo importante para mim; aprendi muito, inclusive tecnicamente. Já entrevistei fisioterapeuta, psicóloga, terapeuta e mulheres em fase de transição de carreira.”
Rita Montenegro: Você teve algum momento de dúvida se o projeto ia dar certo? Como superou?
Suellen Mattos:“Em alguns dias eu ainda tenho essa dúvida, mas acredito que esse receio é natural em qualquer área. Não vim de uma família estabilizada financeiramente. Dependo do meu trabalho para tudo. Sou analista de suprimentos e uso parte da minha renda para viver do podcast. Tenho certeza de que muitas outras mulheres estão passando pela mesma fase que eu.”
Rita Montenegro: Quais são os maiores desafios que você vê hoje para as mulheres que querem empreender?
“Vencer a nossa timidez e o medo de usar a tecnologia, medos que são meus e de muitas outras mulheres também.”
Rita Montenegro: Existe alguma diferença marcante entre os desafios de uma mulher empreendedora e os de um homem, na sua experiência?
Suellen Mattos:“Existe, sim. O que eu acredito é que homens e mulheres são diferentes, e o mercado de trabalho hoje está mais equilibrado, com perfis e abordagens diferentes. Diante da mesma situação, um homem vai explicar de uma forma e uma mulher de outra. Vivemos uma espécie de guerra dos sexos, mas esse não é o caminho — não é sobre duelar, e sim sobre se complementar.
De forma geral, acredito que, como sociedade, conseguimos nos organizar, nos apoiar e melhorar. Temos muito o que crescer e muitas oportunidades para desbravar. Aqui no Rio, por exemplo, não temos tantos eventos ligados ao empreendedorismo quanto em São Paulo.”
Rita Montenegro: Se você pudesse dar um conselho para uma mulher que está pensando em abrir seu próprio negócio hoje, qual seria?
Suellen Mattos:“Vá com medo. Porque o medo vai sempre existir.”
Rita Montenegro: O que vem por aí para o podcast? Algum projeto novo?
Suellen Mattos: “Estou projetando o mês da beleza. E, para as mulheres escritoras, que quiserem participar do podcast, podem também entrar em contato comigo para divulgar os seus livros. Além do podcast, desenvolvo palestras e encontros motivacionais voltados ao empreendedorismo, levando a discussão sobre trabalho informal e superação para além do audiovisual.”







