A cena é de novela, mas a realidade que ela retrata é brutalmente a realidade vivida por muitos professores. Em “Por Você”, Margô (Regiane Alves) é empurrada por um aluno dentro da sala de aula. A agressão acontece no espaço onde sua autoridade deveria ser reconhecida. Ela está ali para ensinar e orientar, mas recebe como resposta a violência de um adolescente que tenta intimidá-la.
Ao se levantar amedrontada, a professora diz: “Nunca mais faça isso. Você tem mãe, tem avó, tem irmã, tem amigas. E mesmo que não tivesse nenhuma figura feminina na sua vida, você não tem direito de agredir uma mulher.”
A fala atravessa os muros da escola. Margô fala como professora e como mulher, diante de um homem em formação que precisa aprender que força jamais lhe concede poder sobre outra pessoa. No banheiro, sozinha, ela chora. Ali, o desabafo carrega a agressão, mas também o cansaço de quem escolheu uma profissão que exige tanto e recebe pouco reconhecimento.
O que a ficção mostra sobre a realidade dos professores

A história de Margô não é um caso isolado. É um espelho de uma crise que atinge milhares de educadores em todo o país. Pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 docentes revela que 65,6% já sofreram algum tipo de agressão na escola, seja agressão verbal, psicológica, institucional ou física. Entre os entrevistados, 74,4% afirmam não se sentir seguros dentro da sala de aula.
Os números sobre violência física são igualmente alarmantes: 19,3% dos docentes relatam já ter sofrido agressões físicas, principalmente em escolas municipais e estaduais.
Em estudo da OCDE com 280 mil professores de 55 países, o Brasil foi o pior colocado. 47% dos nossos docentes apontam intimidação ou abuso verbal de alunos, contra uma média internacional de 18%.
Uma nova forma de agressão
Além da violência física e verbal, uma prática tem se disseminado nas escolas: o “teacher-baiting”. Um grupo de alunos provoca e agride o professor enquanto outro filma escondido. Na edição, corta-se todo o desrespeito e sobra apenas a reação exasperada do docente, que circula nas redes como entretenimento, destruindo sua reputação e saúde mental.
A violência também vem de fora dos muros escolares. Em São Paulo, uma professora com 26 anos de magistério foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno que a culpava pelas dificuldades do filho. Em outro caso, um policial levou colegas fardados e armados a uma escola de educação infantil porque a filha teve uma atividade sobre cultura afro-brasileira.
O peso sobre as mulheres
A violência contra professores tem uma dimensão de gênero que não pode ser ignorada. A categoria é 78% feminina, e são as mulheres que enfrentam a dupla violência: a de serem professoras e a de serem mulheres em uma sociedade marcada pelo machismo.
Margô, na novela, representa essa realidade. Ela é agredida por um aluno, mas sua dor também representa a de milhares de professoras que, todos os dias, entram em sala de aula sabendo que podem ser vítimas de violência física, verbal ou psicológica.
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A desvalorização como raiz do problema
A agressão sofrida por Margô não começa apenas no empurrão. Ela começa na desvalorização estrutural da profissão. O piso do magistério teve reajuste de apenas 0,37% em 2026, muito abaixo da inflação. Na Bahia, o salário inicial de um professor é de R$ 4.965,24, o quinto pior do país e 20% abaixo da média nacional.
Enquanto isso, os professores adoecem. Só na rede estadual paulista, foram 42 mil licenças por transtornos mentais em 2024, cerca de 115 por dia.
O que a novela nos convida a pensar
“Por Você” é uma ficção com um espelho de uma realidade que precisa ser encarada. A teledramaturgia tem o poder de dar visibilidade a dores que muitas vezes permanecem invisíveis. A cena de Margô não é entretenimento, é um convite à reflexão sobre o que estamos fazendo com aqueles que escolhem ensinar.
A pergunta que fica não é apenas sobre o que aconteceu com Margô. É sobre o que acontece com milhões de professoras e professores brasileiros todos os dias e o que estamos dispostos a fazer para mudar essa realidade.









