O jornalismo e a literatura brasileira perderam, nesta semana, um de seus nomes mais versáteis e respeitados. Zuenir Ventura morreu em casa, no Rio de Janeiro, aos 95 anos, vítima de pneumonia. Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 32 desde 2015, o jornalista construiu uma trajetória de mais de seis décadas, marcada pela reportagem investigativa e por obras que se tornaram referência para a compreensão do Brasil contemporâneo.
De arquivista a Mestre Zu e o acaso que virou vocação
Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1º de junho de 1931, Zuenir Carlos Ventura era filho de um pintor de parede, ofício que ele mesmo chegou a exercer na infância. Antes de chegar às redações, foi contínuo, balconista, faxineiro e professor primário, experiências que, segundo ele, foram fundamentais para a formação do jornalista.
Formado em Letras Neolatinas pela antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ), teve aulas com nomes como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima. O sonho inicial era ser professor, e ele o realizou: lecionou por 40 anos na Escola de Comunicação da UFRJ, onde ficou conhecido como “Mestre Zu”.
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Sua entrada no jornalismo foi quase acidental. Trabalhava como arquivista na Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, quando surgiu a chance de escrever um artigo sobre a morte de Albert Camus, em 1960. Lacerda gostou do texto, e Zuenir desceu para a redação.
A partir dali, passou pelos principais veículos do país. Correio da Manhã, O Cruzeiro, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo. Atuando como repórter, editor e diretor de redação.
“Nada substitui o olho no olho. Muitas vezes, o silêncio em uma entrevista fala mais do que as palavras”, afirmou em 2008.
Os livros que marcaram gerações

A carreira literária de Zuenir é indissociável de sua atuação como repórter. Em 1988, publicou “1968: O Ano que Não Terminou”, um clássico da reportagem brasileira que reconstruiu os acontecimentos políticos e culturais daquele ano, incluindo as manifestações estudantis e o AI-5. O livro inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”, da TV Globo, e vendeu milhares de exemplares.

Em 1989, sua cobertura sobre o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes rendeu-lhe os prêmios Esso e Vladimir Herzog. A investigação deu origem ao livro “Chico Mendes: Crime e Castigo”.

Outro marco foi “Cidade Partida” (1994), fruto de meses de imersão na comunidade de Vigário Geral após a chacina de 1993. A obra, que retrata a violência e a desigualdade no Rio de Janeiro, recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem em 1995.
Reconhecimento e legado de Zuenir Ventura
Zuenir recebeu, em 2008, um troféu especial da ONU por ser um dos cinco jornalistas que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no Brasil nos 30 anos anteriores. Em 2010, foi eleito “O Jornalista do Ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
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Para o presidente da ABL, Merval Pereira, Zuenir tinha “um senso de humor refinado” e era “um ambientalista genuíno”. A jornalista Flávia Oliveira destacou seu “olhar generoso e amoroso para com os colegas, inclusive os mais jovens”. O filho, o também jornalista Mauro Ventura, resumiu:
“Ele sempre reafirmou em todos os momentos os ideais democráticos. Conviver com meu pai no dia a dia sempre devolveu a fé na humanidade”.
Zuenir Ventura viveu para contar o Brasil. E o fez com uma generosidade rara, unindo a precisão do repórter à sensibilidade do escritor. Sua morte encerra uma trajetória, mas não a sua influência. Cada jornalista que hoje busca ouvir o outro lado, cada leitor que se debruça sobre seus livros, cada aluno que aprendeu com suas aulas carrega um pouco do que ele ensinou. O Mestre Zu segue presente nas páginas, nas redações e na memória de quem teve o privilégio de ler, ouvir ou conviver com ele.







