A discussão sobre a violência contra a mulher costuma ganhar as manchetes apenas quando o trágico acontece. No entanto, especialistas e educadores apontam que a raiz do problema é muito mais profunda e silenciosa: ela está na forma como criamos e educamos nossos meninos desde a primeira infância.
Enquanto a sociedade exige segurança para as mulheres, países como o Reino Unido e o Canadá já perceberam que a escola é um dos lugares de grande importância para prevenir o machismo. A pergunta urgente não é apenas “por que os homens agridem?”, mas sim “o que os meninos estão aprendendo sobre ser homem?”.
O papel da escola
De acordo com dados da organização Serenas, a violência de gênero não surge no vácuo; ela se estrutura dentro das salas de aula por meio de “brincadeiras”, toques sem consentimento e comentários misóginos que muitas vezes passam despercebidos pelos adultos. A mudança de paradigma exige uma política institucional que ensine consentimento, relações saudáveis e, acima de tudo, novas formas de masculinidade.
5 pilares para uma educação mais humana e igualitária
Para transformar essa realidade, não basta apenas dizer o que não fazer. É preciso oferecer novas ferramentas emocionais para os estudantes. Confira caminhos práticos apontados por especialistas para uma educação mais consciente:
- Permitir a vulnerabilidade: desde cedo, os meninos recebem a mensagem de que a raiva é a única emoção aceitável. Ensinar que chorar e sentir medo não são sinais de fraqueza, mas de humanidade, é o primeiro passo para criar adultos mais empáticos.
- Romper com brinquedos e brincadeiras de gênero: Não existem “coisas de menino” ou “coisas de menina”. Ao permitir que um garoto brinque de casinha ou cuide de uma boneca, ensinamos que o cuidado e as tarefas domésticas também são responsabilidade dele.
- Ensinar o consentimento: o respeito ao corpo do outro deve ser ensinado cedo. Isso vai desde não forçar um abraço até entender que qualquer interação depende da vontade mútua.
- Cuidado pessoal e do lar: meninas são incentivadas a ser organizadas e cuidadoras, enquanto para os meninos o “desleixo” é muitas vezes perdoado. Ensinar o menino a cuidar de si e do espaço onde vive é essencial para que ele não se torne um adulto dependente.
- A força do exemplo e da literatura: Os adultos são os principais espelhos. Além disso, diversificar as leituras, apresentando mulheres como protagonistas e autores negros ou indígenas, ajuda a desconstruir a visão de mundo centrada apenas na figura masculina.
Um compromisso coletivo
Educar meninos para a igualdade não é “retirar privilégios”, mas sim libertá-los de estereótipos que limitam sua capacidade de se relacionar e de expressar quem realmente são. Como afirma a psicanalista e educadora, Carolina Delboni, sem uma educação de gênero e digital eficiente, continuaremos a ver, infelizmente, mulheres nas manchetes de violência.
A escola funciona como um laboratório da vida em sociedade. É no manejo dos conflitos escolares, na divisão das tarefas e no combate ao preconceito em sala de aula que se molda o cidadão do futuro. Quando o ambiente escolar assume o compromisso de desconstruir o machismo, ele deixa de ser apenas um local de ensino para se tornar o motor de uma sociedade onde a equidade deixa de ser um discurso e passa a ser a base das relações humanas.




