A leitura, para muita gente, virou modalidade olímpica. Tem pódio, tem cronômetro e aquela plateia invisível das redes sociais que “cobra” o índice de páginas por minuto. Só que, entre uma meta batida e um post de “lido do mês”, esquecemos o principal: para onde corremos com tanta pressa?
Outro dia, olhei para minha estante como quem observa uma planilha de metas atrasadas. Senti a culpa de quem não abriu um livro na última semana. É a tal necessidade de performance, esse bicho que nos morde até na hora do descanso. Queremos ser leitores vorazes, maratonistas de clássicos, devoradores de best-sellers. No entanto, nessa pressa para devorar, deixamos de sentir e saborear internamente as coisas, como já dizia Santo Inácio de Loyola.
A verdade é que a literatura não combina com pressa. Ler é um ato consentido. É a pausa no meio de uma frase só porque o adjetivo foi bem escolhido, ou porque aquela ideia ecoou no fundo e precisou de tempo para assentar. Quando a leitura vira maratona, o livro vira obstáculo. Lemos a página 200 já de olho na 300, na contagem regressiva insana para fechar a capa e marcar o “check” na lista.
E existe a ressaca. Ah, a ressaca literária! Aquele luto por uma história que acabou ou, simplesmente, o cansaço mental que faz as letras dançarem na página sem que formem sentido. Já passei por várias. Fiquei dias, semanas, para ser mais exata, sem o desejo de abrir sequer uma bula de remédio. E sabe o que aconteceu? Nada. O mundo seguiu o seu giro, os livros permaneceram na prateleira e a minha identidade não foi revogada.
Tudo bem não ter vontade de ler. Tudo bem preferir o silêncio ou um filme despretensioso de vez em quando. A leitura não pode ser um fardo, uma tarefa de casa que nos impomos para que nos sintamos “cultos” ou “produtivos”.
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Recuperar o prazer de ler é, antes de tudo, entregar-se ao direito da lentidão. É a troca da maratona pelo passeio. Desejo a você e, inclusive, a mim, menos “quantos livros eu li” e mais “o que esse parágrafo me causou”. No fim das contas, a literatura existe para nos salvar do mundo, não para ser mais um motivo de “performance sem romance”.
Chega de implorar pela urgência do fim. Afinal, o melhor de uma viagem raramente é o desembarque.




