Ao assistir Brasil e Haiti na sexta-feira(19), vibrei com os três gols da seleção brasileira, mas não consegui me esquecer da história dos haitianos, com tantas batalhas que transcendem qualquer placar. Um país que acumula sete anos consecutivos de recessão e carrega uma desigualdade social que, mesmo em escala diferente, não nos soa tão distante. Talvez seja exatamente por isso que a Copa do Mundo me fascina tanto: ela nos obriga a olhar para o outro. E as crianças, mais do que ninguém, captam isso. Aprendem sobre ética, amor ao país, sem romantização nem ufanismo vazio, mas entendendo o que há de humano na trajetória de cada jogador, na história de cada nação que chega até ali. A FIFA oferece uma estrutura, mas quem dá o sentido é a população por trás de cada bandeira.
É uma sala de aula diferente para educadores. A Copa nos aproxima como escola, além de dois tempos de 45 minutos, mais a prorrogação, para discutir o jogo. Somos um. Aprendemos a rir, a nos frustrar, a torcer, a soltar aquele grito entalado na garganta. Vemos que é preciso ter visão, estratégia e ritmo em quase tudo, principalmente na vida.
O jogo da paz
Um fato importante é destacar que Brasil e Haiti não se encontraram em campo pela primeira vez como estranhos. Entre os dois países, existe uma história de afeto que antecede qualquer Copa do Mundo, e o futebol já foi, inclusive, um instrumento de aproximação política.
O episódio mais emblemático dessa relação aconteceu em 2004, quando a seleção brasileira desembarcou em Porto Príncipe para um amistoso que ficou conhecido como o “Jogo da Paz”. O Haiti atravessava um momento delicado: o presidente Jean-Bertrand Aristide havia sido deposto, e o país vivia uma crise política profunda. Para ajudar a estabilizar a situação, a ONU criou a Minustah, uma missão internacional de paz que o Brasil aceitou liderar, enviando o maior número de soldados entre todos os países participantes. A partida foi uma forma de apresentar essa missão à população haitiana de maneira mais próxima e humana.
A chegada da seleção foi um evento à parte. O Brasil era o atual campeão mundial, o pentacampeonato de 2002 ainda estava vivo na memória, e a delegação trouxe consigo o troféu da Copa. Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos percorreram as ruas de Porto Príncipe em carros blindados, recebidos por multidões. Foram poucas horas em solo haitiano, mas o impacto ficou.
A Minustah, no entanto, deixou um legado ambíguo. A missão durou 13 anos e foi encerrada em 2017, mas acumulou denúncias graves ao longo do caminho: casos de abuso sexual, violações de direitos humanos e, o mais devastador, a introdução da bactéria da cólera no país, doença que até então não circulava no Haiti. Diante das consequências, a ONU foi obrigada a rever suas regras para missões de paz.
O que essa vitória vale?
Brasil e Haiti estão no Grupo C da Copa do Mundo, ao lado de Marrocos e Escócia. A classificação haitiana marca o retorno do país ao Mundial pela primeira vez desde 1974. O Brasil não jogou de forma tão brilhante, mas pode ter encontrado uma nova direção.
Há histórias que vão além de um jogo de Copa do Mundo. E se há algo que as crianças e adultos devem levar dessa partida, é justamente isso: o futebol é também memória, diplomacia e identidade. Por trás de cada seleção, existem sujeitos históricos. Portanto, aprender sobre o Haiti é entender o mundo, e sobretudo o Brasil.










