Dizem que o papel tudo aceita, mas a alma de um livro não cabe no vazio de uma caçamba. O que para alguns é descarte sanitário, para nós, como sociedade, é um silenciamento forçado da nossa própria História.
Como professora, meu cotidiano é cercado por letras que tentam ganhar vida na voz dos meus alunos. Por isso, ao ver as imagens de 40 mil livros descartados em uma caçamba de lixo em Osasco, o impacto foi físico. Mais uma vez, um soco no estômago da educação.
A justificativa oficial da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato veio rápida: os livros estavam mofados, tomados pelo bolor. E aqui, peço licença para a primeira analogia dolorosa: nosso sistema educacional está, há muito tempo, sob o fungo do descaso. Esse bolor não nasceu ontem; é o sintoma de um casamento em crise profunda com o Estado, uma lesão ao patrimônio público e cultural que, de tão corriqueira, corre o risco de virar paisagem.

Dizer que sou uma “professora sonhadora” pode soar ingênuo para alguns, mas me recuso ter a visão de Pollyana. Nós, que estamos no chão da escola, sabemos exatamente onde pisamos. O descarte em Osasco me atingiu em cheio. Até que novamente, sinto o sonho esvair-se ao me deparar com a indignação e o apelo de Marta e André, à frente da Livraria Machado e Cia, da Faculdade de Letras da UFRJ. Eles são a personificação da resistência. São promotores de cultura que, assim como nós, são vítimas desse descaso com o conhecimento, que não é comercial, mas reflexivo e instigador.
Eles não aceitaram o silêncio. E eu, hoje, resolvi gritar junto com eles. Ser voz, também, para os livros que não podem mais falar do fundo da caçamba.
Não! O descarte não é a saída.
Não são papel e tinta que estavam ali. É o acesso, a memória, o repertório de quem muitas vezes só tem a biblioteca pública como janela para o mundo. Como Elza Soares já dizia “Eu não vou sucumbir”. A indignação pode ser corriqueira, mas a aceitação é opcional. Enquanto houver uma livraria resistindo, um professor sonhando e uma comunidade se levantando contra o “bolor” do sistema, a literatura continuará sendo nossa arma de sobrevivência.
Aos livros de Osasco, meu lamento. Aos que lutam por eles, meu grito de ordem. A educação respira, ainda que por aparelhos, e não deixaremos que ela seja jogada em caçamba nenhuma.









