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O lixo que mofa a alma: entre caçambas e sonhos

Uma imagem composta de duas fotografias verticais justapostas, ambas retratando o descarte em massa de livros em um ambiente urbano ao ar livre. A fotografia da esquerda mostra o interior de um grande contêiner de metal de lixo industrial. O contêiner está quase cheio até a borda com uma pilha desordenada e emaranhada de centenas, talvez milhares, de livros. Os livros são de vários tamanhos, com capas de cores diferentes (vermelho, amarelo, azul, verde, branco), muitas delas desgastadas, amassadas ou abertas, criando um amontoado caótico de papel e papelão. No canto inferior direito da imagem, um arbusto verde frondoso obscurece parcialmente a borda do contêiner e alguns dos livros, sugerindo que a cena foi capturada de um ângulo lateral. A fotografia da direita mostra o chão de concreto ao lado da base de um grande contêiner de lixo industrial de plástico verde-oliva. Vários livros de bolso, muitos com capas vibrantes de estilo anime ou mangá (como "Fushigi Yugi" visível), estão espalhados desordenadamente pelo chão de concreto empoeirado ao redor do contêiner. Mais livros estão empilhados ou caídos perto da base do contêiner. O chão parece desgastado e sujo. A luz do dia brilha intensamente nas duas cenas.

Dizem que o papel tudo aceita, mas a alma de um livro não cabe no vazio de uma caçamba. O que para alguns é descarte sanitário, para nós, como sociedade, é um silenciamento forçado da nossa própria História.

Como professora, meu cotidiano é cercado por letras que tentam ganhar vida na voz dos meus alunos. Por isso, ao ver as imagens de 40 mil livros descartados em uma caçamba de lixo em Osasco, o impacto foi físico. Mais uma vez, um soco no estômago da educação.

A justificativa oficial da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato veio rápida: os livros estavam mofados, tomados pelo bolor. E aqui, peço licença para a primeira analogia dolorosa: nosso sistema educacional está, há muito tempo, sob o fungo do descaso. Esse bolor não nasceu ontem; é o sintoma de um casamento em crise profunda com o Estado, uma lesão ao patrimônio público e cultural que, de tão corriqueira, corre o risco de virar paisagem.

Uma imagem dividida em duas. O lado esquerdo mostra uma grande pilha desordenada de livros didáticos e de capa dura dentro de um contêiner de metal. O lado direito mostra uma pessoa de chapéu e camisa listrada, em pé ao lado de um carrinho de mão, jogando vários livros no ar para dentro de um contêiner de lixo industrial verde.
A imagem dói: milhares de livros descartados em uma caçamba em Osasco. Fonte: reprodução/TV Globo.

Dizer que sou uma “professora sonhadora” pode soar ingênuo para alguns, mas me recuso ter a visão de Pollyana. Nós, que estamos no chão da escola, sabemos exatamente onde pisamos. O descarte em Osasco me atingiu em cheio. Até que novamente, sinto o sonho esvair-se ao me deparar com a indignação e o apelo de Marta e André, à frente da Livraria Machado e Cia, da Faculdade de Letras da UFRJ. Eles são a personificação da resistência. São promotores de cultura que, assim como nós, são vítimas desse descaso com o conhecimento, que não é comercial, mas reflexivo e instigador.

Eles não aceitaram o silêncio. E eu, hoje, resolvi gritar junto com eles. Ser voz, também, para os livros que não podem mais falar do fundo da caçamba.

Não! O descarte não é a saída.

Não são papel e tinta que estavam ali. É o acesso, a memória, o repertório de quem muitas vezes só tem a biblioteca pública como janela para o mundo. Como Elza Soares já dizia “Eu não vou sucumbir”. A indignação pode ser corriqueira, mas a aceitação é opcional. Enquanto houver uma livraria resistindo, um professor sonhando e uma comunidade se levantando contra o “bolor” do sistema, a literatura continuará sendo nossa arma de sobrevivência.

Aos livros de Osasco, meu lamento. Aos que lutam por eles, meu grito de ordem. A educação respira, ainda que por aparelhos, e não deixaremos que ela seja jogada em caçamba nenhuma.

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