Tem histórias que o futebol conta melhor do que qualquer roteiro de cinema. A de Lamine Yamal é uma delas.
Aos 19 anos, ele ergueu a taça da Copa do Mundo de 2026 ao lado da seleção espanhola, contra a Argentina. No entanto, antes de ser manchete e ídolo de multidões, Lamine foi só um garoto criado num bairro simples da periferia de Barcelona, e sua trajetória tem muito mais camadas do que os gols que ele marca.
Uma infância de aperto, não de glamour
Lamine Yamal Nasraoui Ebana nasceu em 13 de julho de 2007, em Esplugues de Llobregat, mas foi em Rocafonda, um bairro operário de Mataró, conhecido por concentrar famílias imigrantes e de baixa renda, que ele cresceu.
A mãe, Sheila Ebana, natural da Guiné Equatorial, teve o primeiro filho ainda muito jovem e trabalhou em uma rede de fast-food para ajudar a sustentar a casa. O pai, Mounir Nasraoui, marroquino, chegou a recolher objetos pela rua para revender e garantir comida à família. Também trabalhou como pintor de prédios enquanto o filho dava os primeiros passos no futebol.
Não era incomum a casa inteira dividir o mesmo cômodo entre cozinha e quarto. O luxo, para os Nasraoui Ebana, era outro: manter os três filhos na escola e o sonho do futebol vivo.
O preço da visibilidade: racismo dentro e fora de campo
Ser filho de imigrantes marroquino e equato-guineense em um país onde parte da torcida ainda usa a cor da pele como arma de ataque tem um custo. Um levantamento do Observatório Espanhol do Racismo e da Xenofobia (Oberaxe) apontou Lamine Yamal como o jogador mais hostilizado nas redes sociais entre todo o campeonato espanhol, alvo recorrente de xingamentos xenófobos.
O caso mais grave aconteceu durante um Clássico contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, em outubro de 2024: um torcedor menor de idade foi flagrado gritando ofensas racistas contra o atacante logo após ele marcar um gol. O jovem acabou impedido de frequentar estádios por um ano e teve que cumprir horas de trabalho socioeducativo, além de pedir desculpas por escrito à vítima.
Lamine nunca escondeu o incômodo com esse tipo de episódio, mas também nunca deixou que ele apagasse o orgulho que sente das próprias raízes.
Keyne, o irmão que virou “mascote” da Espanha
Se tem alguém que rouba a cena ao lado de Lamine é seu irmão caçula, Keyne, de apenas 3 anos. As câmeras da Copa do Mundo de 2026 passaram a procurá-lo nas arquibancadas a cada partida, e não é para menos: entre caretas, beijos jogados para a torcida e comemorações espontâneas, o menino virou um fenômeno de internet por conta própria, quase um mascote não oficial da seleção espanhola.
Em entrevistas, Lamine já deixou claro o tamanho desse carinho: fala do irmão como algo essencial em sua vida, quase um filho.

Foto: reprodução/TV Globo
Da rua ao topo do mundo
Do apartamento apertado em Mataró à taça erguida em 2026, a trajetória de Lamine Yamal atravessa muito mais do que talento em campo. É a história de uma família de imigrantes que apostou tudo em um sonho, de um jovem que carrega a própria origem como bandeira e que, mesmo sob ataques que nada têm a ver com futebol, segue escrevendo seu nome entre os grandes. Não é só sobre uma Copa do Mundo. É sobre superação.









