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Ansiedade lidera os problemas que mais afetam jovens

Ansiedade na adolescência

A ansiedade já é a principal causa de incapacidade entre adolescentes, segundo estudo recém-publicado pela revista The Lancet. O dado, porém, exige mais do que espanto. Para entender o fenômeno, talvez seja necessário olhar menos para uma suposta fragilidade dessa geração e mais para o mundo que estamos oferecendo a ela.

“O que será que está acontecendo com os adolescentes?” é uma pergunta cada vez mais frequente em consultórios, escolas e rodas de conversa. No entanto, muitas das respostas que buscamos neles podem estar em nós mesmos. O mundo que habitamos, com suas cobranças, incertezas e pressões, é responsável por grande parte das dores e angústias que atravessam a adolescência contemporânea.

Sem essa consciência, pouco mudará. Continuaremos nos espantando com índices de violência, autolesão, depressão e ansiedade, tratando esses fenômenos como problemas individuais quando, na verdade, são expressões de um mal-estar coletivo.

O que é a ansiedade que incapacita

A ansiedade, que aparece no topo do estudo da The Lancet, não pode ser reduzida a uma “palavra da moda” ou a um exagero emocional da juventude. Não se trata do nervosismo antes de uma prova ou de uma festa. O alerta é para a ansiedade que incapacita o adolescente de viver, que o coloca em constante estado de alerta, que rouba o sono, a respiração e a capacidade de estar presente. Essa é a ansiedade que se torna transtorno emocional.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já apontava, antes mesmo da pandemia, que os transtornos de ansiedade e depressão estavam entre as principais causas de anos vividos com incapacidade entre jovens de 10 a 19 anos. O cenário pós-pandemia, com o aumento do uso de telas e a intensificação das cobranças acadêmicas e sociais, parece ter agravado ainda mais esse quadro.

Um mundo que cobra muito e oferece pouco

Estamos diante de uma geração que precisa construir sua identidade enquanto é permanentemente observada, comparada e avaliada. Espera-se que saibam quem são justamente quando estão experimentando quem podem ser. Cobra-se que escolham uma profissão enquanto ouvem que muitas profissões deixarão de existir. Pedem-se planos para o futuro num tempo em que o próprio mundo parece incapaz de oferecer uma imagem minimamente confiável desse futuro.

Como construir um projeto de vida quando o futuro é incerto? Como desenvolver autoestima quando a comparação com os outros é constante, alimentada por algoritmos que mostram apenas versões editadas da vida alheia? Como se sentir seguro quando o mundo parece estar em crise permanente?

Essas são perguntas que não têm respostas fáceis. Talvez, o primeiro passo seja reconhecer que a angústia adolescente não é um problema individual, é um sintoma de um sistema que prioriza desempenho em vez de bem-estar, produtividade em vez de pertencimento, aparência em vez de autenticidade.

O papel da família e da escola

A família também tem um papel fundamental no sentido de estabelecer uma comunicação aberta e não julgadora, oferecer presença e escuta ativa e validar os sentimentos dos adolescentes sem minimizá-los ou patologizá-los.

O ambiente escolar tem sido apontado como um espaço privilegiado para a identificação e o acolhimento de jovens em sofrimento psíquico. Programas de educação socioemocional, que ensinam habilidades como autoconhecimento, empatia e regulação emocional, têm mostrado resultados positivos na redução de sintomas de ansiedade e depressão entre adolescentes.

Contudo, especialistas alertam que essas iniciativas não podem substituir a necessidade de mudanças estruturais, como a redução da carga de cobranças acadêmicas, o combate ao bullying e à violência nas escolas e a ampliação do acesso a serviços de saúde mental.

Um chamado à ação

A ansiedade adolescente não é uma moda. Não é frescura. Não é falta de fé ou de força de vontade. É uma resposta a um mundo que pede demais e entrega de menos. Um mundo que cobra perfeição, mas não oferece acolhimento. Exige planos, mas não garante futuro. Conecta por telas, mas afasta no contato humano.

Se quisermos de fato ajudar os adolescentes, precisaríamos começar por nós mesmos. Olhar para o mundo que construímos e perguntar: o que estamos oferecendo a eles? Que chão estamos dando? Que futuro estamos desenhando?

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